
Minha mãe dizia sempre que vestida de noiva, sob o meu metro e meio, com certeza eu pareceria estar pronta pra primeira comunhão. Já era um bom motivo preu não sonhar com o casamento religioso. Além disso, as moças da minha época e meio não ligavam pressas coisas. Éramos mesmo, radicalmente contra!
Assim, o Custódio e eu, decidimos pelo casamento civil pra não matar nossas mães de tristeza e fui logo avisando: cerimônia religiosa??? De jeito nenhum. Um pouco de choro materno, a compreensão do meu pai, a inestimável ajuda do meu irmão, minha teimosia e marcamos: civil e festa!!!
Eu era louca pela tia Nívia, todos éramos, e prometi a ela porque estava doente, que receberíamos a bênção de um padre, pretendendo voltar ao assunto quando melhorasse. Mas isso não aconteceu, ela faleceu no dia 26 de dezembro, 19 antes da data marcada.
Não tive coragem pra descumprir a promessa... assim, pedi à minha futura sogra que providenciasse a coisa toda, com as seguintes recomendações: casamento sem público e de manhã, bem cedo.
Primeiro encaramos o curso de noivos, uma verdadeira tortura, mas não vai caber aqui, deixo pra outra ocasião.
Bem, alguns dias antes do sábado marcado, o pároco da Igreja da Lapa, que minha sogra freqüentava o onde havia marcado a cerimônia, nos chamou pra uma conversa.
Não sei se por estranhar a urgência ou quem sabe, o horário, o fato é que encontramos o doce servo de Jesus, armado contra nós. Foi logo perguntando se iríamos nos casar contra a nossa vontade ou de nossos pais... Muito indignado, não nos deixou explicar e vociferava feito louco, até que disse: “Por que pretendem se casar? Vocês estão pensando que casamento é brincadeira???” Dirigindo-se ao Custódio: “você meu filho, é um homem lindo” e pra mim: “e você, menina, não é lá essas coisas. Quanto tempo você acha que ele vai ficar com você?”
Não respondi nem ouvi mais nada, me levantei e saí pelo corredor principal, nariz empinado e nem olhei pra trás, não era preciso, podia ouvir os passos do Custódio logo atrás de mim.
O que a Didi, minha sogra, disse e fez dez minutos depois, nunca nos contou, por mais que implorássemos, levou com ela. O fato é que no sábado, tinha outro padre nos esperando às oito da manhã, mesmo porque eu havia dito que sairia de novo, pelo mesmo corredor principal, caso encontrasse o primeiro por lá.
Sentadinha na sacristia, porque desfilar pela igreja eu não ia mesmo, escutei o padre dando as orientações pro noivo e acrescentando alguma coisa como: “Quando a sua noiva chegar, vou dizer a ela que...” Interrompi: “Olha aqui, se o senhor está esperando uma NOIVA, vai ser difícil, mas se eu sirvo, pode falar.”
Felizmente, ele riu.

E foi assim que fomos pro altar de uma igreja lotada de gente sonada que, não tendo mais aonde ir pra prestigiar o enlace, estava lá.
O que será que o santo padre quis dizer com “coisas” que eu não era, que o Custódio nas últimas três décadas, não reparou? È que na próxima segunda feira, dia 14, faz trinta anos que isso tudo aconteceu.